21/04/2012

Raso lago transparente demais


Domingo à tarde. Minha mente vagueia enquanto viajo pelo metrô rumo a um curso que me meti a fazer de sábado. Mal humor matutino me acompanha, duelando com o ótimo livro que tenho em mãos – A Genealogia da Moral.
Noto algo diferente no ambiente, ao levantar os olhos sobre o livro, mas prefiro ignorar – meu mal humor não é favorável a uma reação adequada. Não posso, estou curiosa demais. Fecho o livro, como quem refletirá por mais um trecho e olho ao redor. Um padrão. Camisas xadrez por cima das blusas justas, shorts jeans e cabelos estrategicamente rebeldes, mecha por mecha.
Acompanhando a multidão que caminha na baldeação para a linha amarela, tenho a clara impressão de que as vitrines da C&A saíram pela cidade, em um protesto de liberdade. Cansadas de só alimentar sonhos de consumo decidiram passear, arriscando manchar sua superfície imaculada e simetrias comerciais. 
O que acontece? Ah... Acho que é um show no Jóquei Clube. Sim, parecem estar fazendo o caminho de lá. Conforme vou chegando à estação Butantã, vão ficando mais numerosos, suas falas se misturando e fazendo com que eu pareça estar em outro mundo com outras referências, outros problemas (problemas?) outras dimensões... 
Começo a me sentir sufocada pela opressão dos filhos adolescentes de classe média-alta, com que não estou acostumada a cruzar. Seus pais, mesmo carregando a mesma profundidade de pensamento, são em geral mais cautelosos em mostrar ao mundo o quanto se apegam à própria imagem, o quanto se importam com relações melindrosas, o quanto sofrem com problemas menores. Os jovens não têm problema em mostrar. Sua juventude lhes dá autoridade para expressarem livremente o seu pensar, que será relevado pela sua bela aparência e invejada vitalidade. 
Desvio das escadas rolantes e me apresso nos degraus – intermináveis – para enfim! Liberdade! Saio da orla de novos rebeldes e começo a me deparar com gente, digamos, mais cotidiana, com suas roupas não combinadas, suas olheiras e preocupações, misturadas agora a uma curiosidade particular (e coletiva) sobre o que acontece naquele pedaço da cidade. Juro que senti ter visto uma etiqueta saindo do pescoço de algum deles com os dizeres “atitude inclusa”.

16/02/2012

Um resumo de um início de uma viagem

Resistência. ...De novo? Ahn..

Arrumação de malas. Um pouco mais de resistência. Providências.

Paisagem, reflexões sobre as diferenças geográficas, sono, cafeína, saudades...

Reflexões sobre a vida e a morte cada vez que um caminhão se joga na frente do carro – não raro – sono, mais cafeína.

Calor, barulho trânsito diferente... Via sacra em postos de gasolina – então, é o quinto posto em que tento usar esse vale... não? Ok, obrigada.

Quarto. Comida. Ar condicionado. Internet ausente, sono adiantado.

Café da manhã, preguiça, trabalho, trabalho. Mais quatro postos de gasolina até encontrar um que aceita... mas não sabe passar. Saco cheio, regras às favas antes do décimo.

Volta, filminho bom, noite tranquila. Falta pouco. Um pouco mais de sono, de saudades, de caminhões e de cafeína... Muita cafeína!

26/11/2011

E quem fiscaliza o fiscal?

A nota fiscal paulista surgiu como uma possibilidade do cidadão ajudar o governo a fiscalizar as empresas, obtendo com isso uma pequena parte nos impostos toda vez que solicita o CPF na nota fiscal. Mais que isso, se propõe publicamente a ressarcir os cidadão caso ele identifique, reclame e registre denúncia contra empresas que não registraram o seu CPF com a Receita Federal. Um preço justo para aqueles que guardam as notas, acompanham, seguem os prazos descritos em manuais e acreditam na seriedade da proposta. Certo?

Seria, se a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo cumprisse a sua parte. Com diversas denúncias feitas, algumas há mais de 6 meses (muito além do prazo prometido de ressarcimento), a única resposta que tenho de cada órgão que aciono a respeito é, resumidamente, "procure outro pra reclamar". Sim, aqueles que investem maçicamente para que os cidadãos e as empresas façam sua parte nos pagamentos devidos, não pagam devidamente. Aqueles que fiscalizam o cumprimento da lei, esquivam-se de questões quanto ao cumprimento dos próprios compromissos, dentro de um programa que prega justamente isso: responsabilidade.

Vergonha. Só o que tenho a dizer. Nota Fiscal Paulista tem se mostrado, pra mim, programa pra inglês ver, com um troco pra quem acredita.

03/09/2011

O lobo voador



Em uma cidade do interior havia um povo que acreditava em um lobo voador. Passava de geração a geração a história de que o lobo havia sido visto voando durante a noite por entre os galinheiros para escolher presas para o seu jantar.
Recentemente os galinheiros eram mais protegidos e não permitiriam tais assaltos noturnos, no entanto, por respeito aos mais velhos e confiança no que diziam, os cidadãos ainda tomavam precauções contra o lobo voador.
Entre essas precauções estavam alguns pequenos hábitos e regras de comportamento, como não passear sozinho à noite, não deixar comida perto dos galinheiros e nem promover caças a lobos.
Conforme os anos passaram, pessoas escreveram sobre as exigências do lobo voador, com base no que seus antepassados disseram, para que as próximas gerações tivessem cuidado com o que fizessem. Quem contrariasse as recomendações e conseguisse manter suas galinhas ilesas teria que compensar a atitude com uma outra série de regras, sob o risco de que o lobo não mais fizesse concessões.
E assim passaram décadas e mais de centenas de anos de uma sociedade construída sobre o medo, mesmo que ninguém mais tivesse conhecimento do lobo voador. Qualquer um que questionasse a sua existência, no entanto, era identificado como ameaça à ordem da sociedade, já que punha em risco tudo o que havia sido construído até então: pessoas dentro de casa depois das nove da noite, horário de refeições para as galinhas e uma bela manada de lobos selvagens nos arredores, protegendo a cidade de - quem sabe - animais mais perigosos.
Um líder local dispôs-se a dedicar a própria vida em função da proteção contra o lobo voador, e criou um imposto para garantir a sua sobrevivência e a de demais protetores da cidade. Convencionou-se, a partir de congressos realizados com esses impostos, que não era tão essencial, mais, a existência real do lobo. O que importava era que as pessoas o tivessem em mente, para nunca saírem de casa depois das oito e que aqueles que alimentassem suas galinhas à noite teriam que pagar impostos extras, para que os protetores pudessem empenhar-se mais nas precauções.
Com o tempo, cada cidadão tinha uma cópia das regras de proteção em casa. É verdade que era raro que as lessem, afinal, os protetores se dispunham a lembrá-las com bastante frequência, a fazer teatros, shows e qualquer artifício de entretenimento para mantê-las na cabeça das pessoas (assegurada, é claro, por um adicional nos impostos).
Também estavam disponíveis mensagens novas e adornos para a casa e para o corpo com os dizeres "lembremo-nos do lobo voador" e "honremos o lobo voador".
No entanto, com o avanço da ciência, estudiosos locais identificaram algo diferente: um fenômeno noturno provocado pelas sombras das árvores e pelo reflexo de uma lagoa distante davam a quem se encontrava perto dos antigos galinheiros, a clara imagem de um lobo voador aterrorizante. Tudo o que havia sido construído e que acreditava-se constituir o caráter dos moradores mostrou-se reflexo da pura falta de conhecimento.
Nesse momento, entretanto, ninguém mais tolevara quem não acreditasse no lobo voador. Alguns encararam a notícia como conspiração. Outros como a confirmação de que o lobo os sondava (um sinal). Outros se uniram aos autodeclarados protetores para ensinar o povo que a nobreza do lobo voador não pode ser alcançada por meros estudiosos; que uma coisa não interfere na outra; que o lobo voador está além da nossa capacidade de compreensão científica.
Ainda existem descrentes. Mas a maioria da população tem medo.

08/05/2011

Razões e emoções

Tem emoções que precisam ficar no forno antes de sair a público, pois o forno permite que acalmem-se os ódios e você perceba o que não vale a pena ser dito.

Mas às vezes, temos que tomar atitudes rápidas, escolher em momentos de emoção. Nesses momentos, a razão parece ser o inimigo do nosso próprio ser, porque o ser em questão está tomado por irracionalidade.

Mas como perceber o que nos afeta a esse ponto? E como prevenir esses escorregões?

Será possível simplesmente respirar fundo e dizer a si mesmo "estou sendo irracional", "isso não deveria ter tanta importância?" ou "de fato, isso afeta meus valores"?